a miar desde 2005

Crocodila Maria

Dom, 22/04/18

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Mudei para esta casa no fim do Verão do ano passado, quando já devia ser Outono. Ainda eu não conhecia os cantos à casa, já um inverno matreiro me traía e eu adormeci escondida num canto.

 

Acordei há dias, quando o sol começou a espreguiçar-se de Primavera. Magricela e escurecida de tão engelhada, vivo agora nos canteiros de uma marquise bem iluminada, onde o sol se espalha desde cedo e se estende até à noite.

 

Sei que corro riscos de andar por aqui porque os gatos não perdoam, mesmo de papo cheio. Também vivo com uma humana um bocado parva que se farta de me incomodar por andar à espreita e tentar tirar fotografias. Logo eu que gosto tanto de passar despercebida.

 

Tudo se equilibra porque se a humana me chateia, também me protege. Tenho um quarto de cartão com duas portas estrategicamente escondidas, um quintal de uma dúzia de vasos para subir e apanhar sol, e ainda uma área de parede protegida dos olhares felinos. A troco das instalações e protecção, patrulho a área para apanhar insectos incautos - é o nosso contrato.

 

Agora vou ali fazer uns push-ups que o sol espreita.




Gato Vadio

Sex, 27/09/13

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A brisa da manhã refresca de energia e, com a mesma melancolia com que pinta o céu de branco e molha tudo, vai soltando as folhas das árvores que gostam de chegar nuas ao Inverno.


E eu, gato controverso que tanto passeia a descoberto na chuva miúda e fria como se enrosca quase a tocar o lume, só fico com pena dos dias cederem tanto espaço às noites.

 

Nunca temos tudo, porque tudo é o lado de dentro e o lado de fora, e quem fica no meio com a porta aberta, convencido de ter tudo, tem, afinal, nada.

 

Talvez por isso considere o encurtar dos dias o pagamento pela magia do Outono, embora já ache o negócio menos justo no Inverno que sempre exaspera em Fevereiro.

 

Mas esta manhã de ventinho fresco e chuva miudinha, parece apenas empenhada em refrescar e começar a despir as árvores. E sabe mesmo bem.


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Humana

Qui, 12/09/13

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O treino de tradução de linguagem visual para linguagem verbal pode abreviar muito o processo de tradução. Aprendemos a verbalizar e a interpretar.

Mas teremos de viver com o que nunca chega a ser comunicado. Porque por mais que se treine, o pensamento visual é muito mais rápido.

E enquanto uns recebem treino para utilizar mais o pensamento visual, outros frustram por não conseguir palavras que em tempo útil vomitem um raciocínio inteiro.

Se nos tivermos habituado a verbalizar com razoável destreza, ficar sem palavra é como uma porta fechada.




Gato Vadio

Qua, 28/08/13

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Do pequeno mundo dos meus telhados nem por isso secretos, salto os muros do entendimento como quem cheira as flores de um canteiro.

 

Calcorreio os caminhos que se desenham na descoberta de lugares paradisíacos, estes sim, secretos, não obstante à distância de um sonho. Ao largo dos novos quintais, a gataria é afável como não sabia possível a essa raça nem sempre felina que são os outros.

 

Porque os outros sempre prontos para uma garfada.

 

Afinal o pequeno mundo dos telhados mesmo que secretos, engrandece com o entendimento ganho na coragem dos saltos, como quem acorda a cheirar a flores pela manhã.




Gato Vadio

Dom, 18/08/13

A lua enche-se de graça para me alumiar o caminho. E eu quintais acima a acorrer ao chamamento urbano onde outros chamamentos também gritam. Agora ainda dia mas bigodes compostos. Que se a noite se deitar ao caminho, já o luzeiro garante que me não perco.

Percorro vales e montes com a calma dos leões de papo cheio, ainda que a janta só me espere no destino. Qualquer gato em passeio comprido prefere comer à chegada, não vá ter de dar uma corrida. Mas também ajuda não ter bolas de pêlo a revirar o estômago.

Curiosa é a natureza que mete sol e lua no mesmo céu. Como se apenas para nos garantir resguardo entre o dia que se some e a noite que se espalha. Ou talvez apenas para acender a candeia das ideias..




Erva Daninha

Ter, 30/07/13

Podemos racionalizar (quase) tudo. A perda, a rasteira, a indiferença. Podemos até racionalizar a traição, o engano ou a rejeição. Podemos quase tudo, desde que o neocortex consiga fechar as algemas nos punhos da amígdala. Arrancar-lhe qualquer receptor químico. Amordaçá-la. Mas esta merda não funciona se, no fundo, ainda estivermos em negação, de uma banalidade que seja. Porque é como uma pedrita dentro do sapato.




Gato Vadio

Qui, 25/07/13


Pode um gato armar-se aos cucos e desafiar céu e inferno no mesmo mergulho? Pois pode.

 

Não fosse a cagufa que me tolhe o esqueleto vadio e um dia destes ia voar com os pássaros...

 

Não voando no céu pode sempre voar-se no chão. E é pelo chão ladeado de verde e rio que agora me perco de voos rasantes.

 

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